Revista Bravo! – Último ato

Quase dez anos atrás, a revista Bravo!, da editora Abril, era sinônimo de cult e objeto de desejo de muitos artistas, produtores e jornalistas. Mas parte do meu deslumbre com a publicação se esvaiu quando cursei a primeira edição do Rumos Jornalismo Cultural, um laboratório do Itaú Cultural com universitários de todo o país dedicado a discutir e a aprender as particularidades desse segmento. Se por um lado a Bravo! tinha credibilidade por levar diversas expressões culturais a sério, ela também tinha a obsessão de dedicar sua cobertura ao consumo. Em geral, todas as matérias e notas da revista falavam de shows, filmes, peças, exposições e produtos que estavam à venda ou em cartaz no eixo Rio-SP. Ou seja – em última instância, a revista ignorava manifestações culturais que estivessem à margem da indústria e excluía um público enorme da maioria das regiões do país. Outra crítica que fazíamos: por que se restringir a agendas? Por que mostrar apenas o que já está oficializado como cultura?

Reclamações à parte, vale reconhecer que a Bravo! teve um papel importante na precária história do jornalismo cultural brasileiro. E por isso lamento o anúncio do fechamento da revista, feito neste primeiro dia de agosto. Assim como disse o colega Bruno Torturra, torço para que o passaralho também possa significar uma oportunidade para os ex-repórteres, editores e “raladores” da equipe da publicação.

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Aqui, segue trecho da carta de Armando Antenore publicada no Facebook, que em seguida aponta possíveis razões para o fechamento.

A Abril Mídia divulgou hoje, oficialmente, o fim da revista BRAVO! em todas as plataformas. A publicação – uma das únicas no país dedicada exclusivamente às artes, onde trabalhei entre agosto de 2005 e julho de 2013, como editor-sênior e redator-chefe – nasceu em outubro de 1997. Estava, portanto, à beira de completar 16 anos. Foi criada numa pequena editora de São Paulo, a D’Ávila, já extinta, e migrou para o grupo Abril em janeiro de 2004. Quando chegou à seara dos Civita, desfrutava de prestígio, mas padecia de má saúde financeira. Não sei dizer quanto dava de prejuízo à época. Só sei que, na Abril, o quadro não se alterou substancialmente, mesmo quando o título adotou uma linha editorial um pouco mais pop, um pouco menos “cabeça” que a de origem.

Com todos os defeitos que pudesse ter – e que realmente tinha, à semelhança de qualquer publicação –, BRAVO! não perdeu o respeito do meio cultural. Havia divergências de vários artistas e intelectuais em relação à revista. Os próprios jornalistas que passaram pela redação nem sempre concordavam 100% com a filosofia do título, ditada obviamente pelos donos. Uns o acusavam de conservador, outros de elitista, superficial ou condescendente demais. Mas havia também muita gente boa que gostava de nossas edições. O fato é que mesmo os opositores jamais recusaram sair nas páginas de BRAVO!. Quem trabalhava para a publicação raramente ouvia um “não” quando fazia pedidos de entrevista. Até Chico Buarque, famoso por se expor pouquíssimo na mídia, topou protagonizar uma capa junto de Caetano Veloso (deixou-se fotografar, mas não abriu a boca, convém lembrar). Todos, de um modo geral, reconheciam que a publicação buscava primar pela seriedade.

Mesmo assim, em termos comerciais, BRAVO! nunca gerou lucro – pelo menos, não na Abril (como disse, desconheço os números da D’Ávila). A revista, embora contasse com o apoio da Lei Rouanet, operava no vermelho. Em bom português, dava prejuízo – ora de mihões, ora de milhares de reais.

NINJA: Jornalismo e ativismo

Excelente audiência, transmissões diárias para todo o mundo, jornalistas com uma apurada visão de defesa dos direitos urbanos e humanos. Não me refiro a nenhuma cadeia nacional de televisão ou grande portal de internet, mas sim a um projeto que nasceu do potencial da famosa web 2.0 para ganhar o mundo real. Ou melhor – mudar a realidade.

Cobertura nas ruas (Crédito: Acervo NINJA)

Parece exagero, mas não são poucas as façanhas do coletivo de ativistas da Mídia NINJA – Narrativas independentes, Jornalismo e Ação. Esse é o mote do grupo que conseguiu mostrar ao país, em tempo real, o que acontecia dentro das manifestações de junho. Sem medo das bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha, eles estiveram na avenida Paulista com seus smartphones transmitindo em streaming para a #PósTV, com links divulgados nas redes sociais. As imagens do claro abuso da polícia foram compartilhadas de maneira viral e contribuíram para a própria mudança de foco inicial na cobertura da mídia tradicional. Outro impacto: os NINJAS ganharam adeptos e uma grande visibilidade que também pode significar uma oportunidade para a renovação do jornalismo (ou talvez ressureição, diriam os muitos que não cansam de declarar que Inês é morta…).

Em BH o papel das transmissões NINJA segue importante. Eles estiveram bem próximos da ocupação da Câmara e também transmitiram 200 horas de reuniões com autoridades, além de aulas públicas e manifestações. Por isso a turma daqui resolveu aproveitar o momento para um chamado público de recrutamento NINJA. E querem ir além disso, propondo também agregar jornalistas dispostos a investir em jornalismo investigativo sobre os vários temas de direito à cidade, como cultura, transportes e moradia.

Aqui cabe um rápido histórico de como essa fagulha foi acesa.

Ainda no tão longe/ tão perto dia 5 de junho, o jornalista Bruno Torturra escreveu em seu blog sobre os “passaralhos” – termo do jargão jornalístico para demissões em massa nas redações. Ele sacou como a quantidade de jornalistas que “se libertaram” das grandes empresas poderia ser uma oportunidade para o jornalismo. Livres das empresas, eles teriam a autonomia e a independência necessárias para realizar boas reportagens. Claro, com as manifestações, o texto teve ainda mais repercussão e, de fato, mobilizou muitos jornalistas e interessados.

Os integrantes do NINJA em BH fizeram um convite parecido para encontro na Casa Fora do Eixo Minas (aqui o link da página no Facebook). Estive lá para conhecer a proposta, agitada pelo amigo e querido Israel do Vale, nosso eterno dom Quixote do jornalismo cultural. No momento, a ideia é agregar mais interessados em criar uma rede mineira de jornalistas dispostos a contribuir e a produzir pesquisas, apurações e reportagens de fôlego que sirvam como um novo passo para o NINJA.

Formas alternativas de financiamento foram pensadas, mas o certo é que ainda é cedo para isso. De momento, NINJAS procuram NINJAS. Vejamos os próximos capítulos.

[PS1 - Para acompanhar as coberturas ao vivo, acesse a @MidiaNINJA no twitter.]

[PS2 - Esse papo me fez pensar muito no Centro de Mídia Independente, o CMI. Quando entrei na faculdade, no início dos dois mil, eles eram a referência de cobertura independente e ligada aos movimentos sociais. De tempos para cá deixei de ouvir sobre o site, mas eles continuam na ativa. Fico aqui imaginando como poderiam apoiar a causa NINJA...]

A TV ladra. E morde.

Ontem, ao pegar o sentido errado do ônibus da linha 2104, fui obrigada a seguir viagem até o ponto final, no bairro Nova Gameleira, zona oeste de Belo Horizonte. A paisagem de urbanização precária parece terreno fértil para a proliferação de bares com tijolo aparente, alguns velhos salgados fritos em exposição e muita cachaça servida ao público majoritariamente masculino. Na espera de mais de meia hora até o retorno do coletivo no sentido centro, acompanhei o clima de descontração no convívio entre trocadores, motoristas, donos e fregueses do bar. Mas não pude deixar de notar o fascínio comum compartilhado por eles: a TV ligada no noticiário local da rede Record com destaque aos crimes mais horríveis do dia.

Sintonizada no Cidade Alerta, a TV exibia à exaustão o suposto crime cometido por um homem que teria estuprado uma bebê de 3 meses encontrada morta pela polícia. E dá-lhe entrevistas com o suspeito e com a mãe da bebê, por sua vez, acusada de maus tratos à criança… Em seguida, a repórter de rosto bonito entra ao vivo fazendo perguntas para a policial: “Você também é mãe? Você percebeu em algum momento algum remorso da mãe da bebê?”. Mas logo declara: “A polícia liberou o homem por falta de provas”. Ou seja, a jornalista faz parecer um absurdo o que na verdade está previsto na Declaração Universal de Direitos Humanos: “Toda pessoa acusada será presumida inocente até que sua culpa seja provada”.

Estamos diante do clássico caso da TV que se rende ao sensacionalismo, mostrando “o que o povo gosta” em busca de audiência. Afinal, o ibope é medido segundo a segundo e, quanto maior o pico, maior a exploração do tema ao vivo. Nem sempre os jornalistas envolvidos na produção, edição e exibição do jornal estão de acordo com a prática, mas dependem do emprego e acabam encarando a tarefa. Mas será que não há como ser um pouco mais ético e respeitar direito à privacidade e à justiça dos supostos envolvidos nos crimes? Precisamos mesmo seguir condenando suspeitos – em geral negros e pobres – por conta própria?

A recente convivência com uma grande amiga defensora pública estadual me convenceu do contrário. A imprensa não tem o direito de acabar com a vida de milhares de pessoas em nome da audiência. E precisa ser ética na cobertura de crimes. Esse diagnóstico também foi feito pelo Instituto de Defesa do Direito de Defesa, que lançou em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais o Manual de Direito Penal para jornalistas – Material de apoio para coberturas criminais. A dica é da minha amiga advogada, que lida diariamente com vítimas de condenações feitas por antecipação por jornalistas.  E claro, a presunção de inocência está entre os principais conceitos apresentados no guia.

Que os donos e diretores de emissoras também possam um dia se debruçar sobre materiais como esse e mudar o jogo na cobertura de crimes. Afinal, noticiar não precisa ser sinônimo de explorar, não?

A esquina do Brasil na mídia

cartacapital

Foto de Vanessa Lemos

Jornalista já adora criticar qualquer coisa. Aliás, em geral perdemos facilmente o limite de quando devemos sair anunciando nossas ácidas observações sobre o mundo por ai… Simples opiniões sobre filmes em cartaz, por exemplo, correm alto risco de se transformarem em brigas homéricas entre amigos de longa data… [Não acredito que você gostou do novo filme do Almodóvar!! É péssimo!!]

Só para começar no contra-fluxo, dedico o primeiro “post crítico” de mídia desse blog a um elogio. Falo de um espaço nobre no jornalismo brasileiro, em duas páginas que trazem alívio semanal para o leitor ávido por bons textos e bons retratos do Brasil. Você já leu com atenção a coluna Brasiliana da Carta Capital?

Há anos acompanho a coluna, assinada tanto por colaboradores como por repórteres fixos da publicação. Em geral, as matérias traçam o perfil de algum anônimo das ruas que raramente teria espaço na famigerada “grande mídia”. E assim nos ajudam a entender melhor quem somos.

Na edição desta semana (10 de julho), por exemplo, Beatriz Borges contou a história de um zelador de prédio em Santos (SP) que passou a colar cartazes com suas poesias nas paredes do centro da cidade. Graças a uma certa “incontinência poética”, como sugere o título, foi capaz de interferir no dia a dia da população da cidade e reverter sua própria condição de “cidadão invisível”. Ao focar no personagem, a reportagem tem o mérito de reforçar o que todos sabemos – toda história real de vida tem algo de ficção. E sempre pode ser incrível.

O zelador Barney Days, por exemplo, já foi segurança, goleiro, frentista, messiânico, espírita, budista, ator de teatro. Ganha a vida vigiando a portaria de um prédio, mas carrega consigo esse desejo incontrolável de jogar poesias ao ar. [Lembrei agora da protagonista de A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery...]

Revelar a rua e seus personagens de carne e osso é também a missão de Eliane Brum, a mestre tupiniquim do jornalismo literário que segue na ativa produzindo obras de referência para novas gerações de repórteres. Eu mesma já bebi e sigo bebendo desta fonte. E, claro, voltarei a Eliane em um próximo post…

BH, uma foto por dia

"O grito dos meninos", de Charles Tôrres, site  BH, uma foto por dia.

Internet tem dessas coisas: uma pesquisa qualquer no Google pode levar a valiosas descobertas. Tive essa sorte quando me deparei com o projeto do fotógrafo Charles Tôrres, autor do site www.bhumafotopordia.com. Nesse espaço ele consegue mostrar como o cenário banal do cotidiano também pode ser incrível, enxergando beleza nos cantos mais inesperados da cidade. As imagens são sensíveis, belas e simples. Escolhi compartilhar a foto do artista no cruzamento da rua da Bahia com a rua Gonçalves Dias porque ontem mesmo passei por essa esquina, mas só agora consigo notar a poesia no asfalto.

Observação: A foto foi retirada do site do Charles, por isso escolhi nova imagem para este post: os meninos que se refrescam no concreto da praça da Estação, centro de Belo Horizonte.

Cinco homens e uma assembleia popular

five man

Terça-feira, dois de julho. Um possível instinto de “jornalista cidadã” (que belo termo, não?) por fim me levou a conhecer a ocupação popular no saguão da Câmara Municipal de Belo Horizonte. Foi interessante conhecer o movimento e testemunhar as dores e delícias da tentativa de se realizar uma sonhada democracia direta, na qual todas as decisões do movimento devem ser decididas em assembleia. Na prática, esse esforço quer dizer longas horas de discussão, informes, tentativas de consenso, votações, questões de ordem, meta-explicações sobre a metodologia da discussão e algumas polêmicas. Apesar da maratona, em geral os participantes estavam satisfeitos – desde sábado, quando começou a ocupação motivada pelo pedido de redução da tarifa do transporte público em BH, eles notam avanços nas discussões, nas propostas e no próprio aprendizado do fazer político.

Mas enquanto estive ali, sentada entre a multidão que acompanhou a assembleia, notei com curiosidade a presença de cinco seguranças vestidos de terno preto e camisa azul, braços cruzados e olhar atento ao relógio. Eles ajudam a formar o bloqueio, também composto por homens da guarda civil, que impede a passagem dos manifestantes ao plenário da Câmara. A cena é claramente insólita – naquela situação, o grupo de seguranças está apenas “garantindo a ordem”. São quase estátuas, impedidos de votar, participar e opinar sobre os rumos de uma cidade que também é deles. Minha aproximação para conversar com o grupo foi mal vista a principio – “não podemos dar nossa opinião”, disse o primeiro da fila. Um mais simpático logo disse que sim, que podia dizer o que pensava – “eu acho muito bom. A gente está vivenciando um momento histórico no Brasil”. A presença dos estudantes com suas barracas, colchões e cartazes também atraiu a admiração do rapaz de porte alto que preferiu não dizer seu nome: “Eu acho interessante como eles se organizam na hora da comida”.

Perguntei sobre a tensão da função de segurança em um momento como esse, mas todos disseram que o clima é tranquilo e pacífico. O horário de serviço do grupo não foi alterado – seguem fazendo o turno de 10 horas por dia, com uma hora de almoço. Na minha visão, a rotina é que ficou menos monótona. E gostei de uma última observação que ainda ouvi do mesmo cara simpático – “se eles [manifestantes] viessem mais para a Câmara, talvez não precisasse ter chegado a isso”.

Aqui, um vídeo que retrata o clima da ocupação.